segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A luta entre o bem e o mal em tempos de good vibes!

Temo o homem que só conhece um livro (Timeo hominem unius libri) Sto. Tomás de Aquino


Algumas teorias afirmam que os primeiros homens não nasceram com inteligência. Que esta foi construída ao longo de sua história de hominização. A evolução de qualquer criança em todos os tempos e culturas, que evolui do mais simples para o mais complexo pensamento abstrato ou simbólico, deve estar ainda acontecendo com o ser humano, ou seja, ainda estamos em processo de evolução de nossa capacidade de raciocínio, de convivência com as diferenças de raça, cultura, religião, língua ou modo de ser.
De acordo com a psicanálise, desde o seu surgimento, o homem é movido por duas lógicas, consciente e inconsciente. O homem, primeiramente instintivo e passional, foi sendo recoberto pela consciência e razão. Mas essa razão ainda não conseguiu determinar a totalidade de seus atos. Ou seja, o irracional cujo efeito são aspassagens aos atos ainda domina grande parte do existir humano. Freud descobriu que somos resultantes de dois princípios psíquicos opostos que lutam entre si: os Princípios de Prazer ou do Gozo e o de Realidade. E, ainda, haveria uma luta entre essas duas e a leis da cultura, cujo base inaugural teria surgido com a proibição do incesto.
Esse jogo de forças - do desejo e da cultura - sempre foi complicado para as culturas entender, resolver ou administrar. Tradicionalmente a cultura resolveu, reprimindo, regrando, punindo, etc. Foi preciso muito tempo, experiências e debate para que algumas culturas e sujeitos aprendessem a conviver com o seu próprio desejo, com o erótico, com as diferentes sexualidades, especialmente com a mulher. Todas as culturas ainda têm dificuldade de aceitar que o Bem e o Mal constituem o todo do ser humano. As pulsões e desejos humanos sempre foram tidos como forças demoníacas. Na antigüidade, o demônio nada tinha a ver com o diabo, era um ser inspirador ou era quem vetava as más atitudes. Sócrates, no séc. 5 antes de Cristo, dizia que o daimon o guiava ao bem e vetava suas tendências mal pensadas. Só mais tarde é que interesses mais políticos que religiosos, fizeram acontecer a fusão do demônio como o diabo, satã, etc.
Um dos mecanismos mais utilizados pelo ser humano para se livrar do Mal é a projeção de sentimentos ou figuras inexistentes como operadores simbólicos do psiquismo. A atividade psíquica que sustenta a projeção é de ordem inconsciente, tal como todos os demais mecanismos de defesa. Odiar o vizinho, ou não aceitar uma tendência sexual, ser invejoso, etc. poderia forçar o psiquismo a projetar essas idéias e sentimentos em outras pessoas, personificadas enquanto diabo, satã, enfim o Mal. Uma nação inteira pode ser tomada pelo histerismo de projetar numa só figura o Mal que, no fundo, é dela mesma. Mas, ela própria não se dá conta disso, visto ser uma ação made in inconsciente que demanda purificação de Mal.

Maniqueísmo: a luta entre o Bem e o Mal

O maniqueísmo é uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto como que dividido em dois: o do Bem e o do Mal. A simplificação é uma forma primária do pensamento que reduz os fenômenos humanos a uma relação de causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo, é ou não é. A simplificação é entendida como forma deficiente de pensar, nasce da intolerância ou desconhecimento em relação a verdade do outro e da pressa de entender e reagir ao que lhe apresenta como complexo. "A pressa de saber obstrui o campo da curiosidade e liquida a investigação em muito pouco tempo", declara o psicanalista W. Zusman (A terra sob o poder de Mani, JB/s.d.). A pressa não é só inimiga da perfeição, é também inimiga do diálogo, do pensamento mais elaborado, sobretudo, filosófico e científico.
O maniqueísmo é uma forma religiosa de pensar; não como religião autônoma, mas enquanto comandos camuflados que influenciam os discursos do cotidiano, inclusive as religiões formais e seitas. 
Mani (Manes ou Manchaeus), nascido na Pérsia, no século III, fundou  uma religião, o maniqueísmo, após ter sido "visitado" duas vezes por um anjo que o convocou para esta tarefa, fato este comum entre aqueles que fundam religiões e seitas até hoje. A religião maniqueísta se difundiu pelo Império Romano e pelo Ocidente Cristão. O maniqueísmo combina elementos do zoroastrismo, antiga religião persa, e de outras religiões orientais, além do próprio Cristianismo. "Possui uma visão dualista radical, segundo a qual o mundo está dividido em duas forças: o Bem (luz) e o Mal (trevas) como entidades antagônicas em perpétua luz. Luz e trevas no sistema maniqueísta não são figuras retóricas, são representações concretas do Bem e do Mal. O Reino da Luz e o Reino das Trevas estão em permanente conflito. É dever de cada ser humano entregar-se a esse eterno combate para extinguir em si e nos outros a presença das Trevas afim de poder alcançar o Reino da Luz, que é o Reino de Deus. No maniqueísmo, os homens "eleitos" irão purificar o Bem, com uma vida de castidade, renúncia a família, alimentação especial, etc.
A expressão maniqueísmo ganhou uso corrente  ao definir aquele tipo de pessoa ou aquele tipo de pensamento de estruturação dualista que reduz a vida (ou alguns de seus aspectos) a pares antagônicos irreconciliáveis, tipo: direita/esquerda, corpo/mente, reacionário/progressista, belicista/pacifista, fiel/infiel, capitalista/comunista, individualismo/coletivismo, branco/negro, ariano/judeu, raça superior/raça inferior, objetivo/subjetivo e assim por diante. "É evidente que não se pode deixar de reconhecer a existência daquilo que cada um desses pares antitéticos nomeia, mas o pensamento maniqueísta vai além na medida em que considera que um lado deve destruir o outro, porque um é Luz e o outro Trevas" (Zusman), um é o Bem e o outro é o Mal.
Por exemplo, a propaganda nazista contra os judeus plantou no inconsciente do povo alemão o que este já continha de preconceito e racismo. Primeiramente, o alemão ariano e cristão tinha herdado a crença de que os judeus eram os assassinos de Cristo e representavam o diabo ou todas as forças do mal, na terra. Assim como Cristo comanda o mundo espiritual, o diabo comanda o mundo material - dinheiro, poder e sexo.  Segundo, os judeus foram associados a esses três elementos materiais, principalmente o dinheiro. No período nazista, as crianças alemãs eram educadas para estigmatizar os judeus, com desenhos e histórias associando-os ao mal ou ao diabo. Terceiro, a propaganda nazista foi sistemática contra os judeus, explorando o simplismo do pensamento maniqueísta. Começaram associando os judeus a traças, piolhos e vermes que "corroíam a economia alemã", em verdade, tal propaganda  preparava o espírito coletivo alemão para a chamada "solução final" ou medida "higiênica" de extermínio em massa de todo o povo judeu, segundo análise de Robert Vistrich, da Universidade de Jerusalem.
Outro exemplo, no período da guerra fria, o presidente norte-amearicano, R. Reagan, fazia declarações apontando os soviéticos como a encarnação do demônio. Depois, o Bush pai, fez o mesmo com Saddam Husseim. Hoje, o Bush filho, personifica o Mal em Osama bin Laden e declara em bom discurso maniqueísta de que "quem não está com os EUA, está a favor dos terroristas. Os fundamentalistas islâmicos usam do mesmo maniqueísmo com os norte-americanos, chamando-os de "grande Satã" e Israel de "pequeno Satã". São mais que discursos, são preparativos para ações de destruição do mal em nome do bem. Sendo o maniqueísmo uma simplificação do modo de pensar a vida todo o sistema social que sobre ele se monta é necessariamente dogmático, violento, intolerante e também fadado ao desmoronamento.
O maniqueísmo não se sustenta por muito tempo, devido ao seu dogmatismo, isto é, sua incapacidade de colocar à prova da realidade ou da lógica, suas verdades simplificadas. Como seu pensamento está reduzido a um par de verdades antagônicas, aceitar o raciocínio do outro, discordante, significa deixar-se arrastar para o domínio do mal e ser por ele tragado. A vida do maniqueísta se converte em uma prontidão de vigilância (paranóia) constante para não se deixar iludir com os "discursos sedutores".  Santo Agostinho que inicialmente foi maniqueísta, depois de ter se afastado, escreveu em Confissões (livro 7) que, nessa doutrina "não tinha encontrado paz e apenas expressava opiniões alheias".
Atualidade do maniqueísmo
O modo de pensar maniqueísta é oportunista em todos os espaços humanos. Ele demonstra ter mais força quando vivemos situações-limite, desesperança, ódio extremo, ou falta de perspectiva quanto ao futuro. Nesses momentos, a mente regride às origens, em busca de soluções mágicas, simplistas, libertadoras de angústia. A história alerta que, até pessoas sofisticadas intelectualmente e nações cientificamente avançadas, como EUA, Alemanha, Israel, foram levadas pela onda histérica maniqueísta. Os sintomas aparecem nos discursos: "infinita justiça", "cruzada contra o terror", "guerra santa [Jihad] contra o império do mal", a alegria de antiamericanos após o ataque a Nova York e pseudo-análises comparando as mortes desses ataques com as de outras partes do mundo, etc. Leonardo Boff, ex-frei franciscano, prolífico escritor, gurú da teologia da libertação, atualmente teólogo e ambientalista, em recente entrevista no jornal O Globo, num acesso de ira ideológica que não condiz com o autêntico espírito do cristianismo disse: ''Acho muito pouco cair um avião sobre o Pentágono. Deveriam cair 25 aviões. É preciso destruir o Pentágono todo.'' Segundo a crítica de Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, não foi um escorregão retórico, a tese é defendida ''racionalmente'' mais adiante colocando o Pentágono e as torres do WTC como símbolos de um sistema que precisa ser destruído para acalmar a perplexidade da humanidade.
Escreve Dines: "O compassivo teólogo sabe que os aviões não caíram do céu empurrados pela Divina Providência, foram jogados por alguém. Sabe também que nesses edifícios, com apenas três Boeings, foram assassinadas milhares de pessoas. A hecatombe que propõe não é arquitetônica ou mero saneamento urbanístico. Com seus 25 aviões está sugerindo um verdadeiro genocídio em nome da proposta de unir espiritualidade, justiça social e defesa do meio ambiente. A hecatombe que propõe não é arquitetônica ou mero saneamento urbanístico. Com seus 25 aviões está sugerindo um verdadeiro genocídio em nome da proposta de unir espiritualidade, justiça social e defesa do meio ambiente".
Enfim, todos saímos perdendo ao ler falsas análises - ou meras opiniões fundadas no pensamento maniqueísta. Alguns fazem comparações absurdas de Bin Laden como se fosse o Che Guevara de hoje. Ora, colocar ambos no mesmo saco é o mesmo erro que chamar um chinês de japonês ou um cearense de baiano. Bin Laden é de origem aristocrática, nunca se preocupou com a pobreza e é um seguidor  fanático do Alcorão que ele interpreta como quer. Já Che Guevara era um médico que se tornou um guerrilheiro marxista, um sonhador da erradicação da pobreza; seu método de luta não matava inocentes tal como faz o terror, mas os adversários em combate e, também questionava o valor da religião. Bin Laden nada tem de socialista, não tem projeto de uma sociedade progressista, em nada avança no pensamento dialético, muito ao contrário, como todo fundamentalismo religioso, no fundo é um protofascista. Che olhava para o futuro, já o Bin Laden quer levar a sociedade para um passado mítico - que nunca houve - segundo a promessa das escrituras sagradas.
Como alerta Zusman: "É mais fácil criar "mísseis inteligentes do que conquistar a inteligência que permite a superação do pensamento maniqueísta". É mais cômodo seguir os paradigmas estabelecidos do que rever os posicionamentos, reorganizar e contextualizar o pensamento, ter a coragem de reconhecer os erros ou até abandonar um posicionamento por outro melhor.
Portanto, mais que uma forma simplista e dogmática de pensar, o maniqueísmo propõe uma ação, uma luta eterna contra o Mal, personificado em algumas coisas, pessoas e situações. Na ação maniqueísta "vale tudo", até mesmo a violência extrema contra o Mal, que ele delira. A guerra e a tortura são os principais meios do maniqueímo. Hitler, também acreditava ter uma grande missão de purificação da humanidade. "As lágrimas da guerra prepararão as colheitas do mundo futuro", escreveu.
K. Popper constata que " toda vez que o homem quis trazer o céu para a terra, fez reinar o inferno". Sabemos pela história que o pior inferno é aquele que mata, oprime e ordena, em nome do Bem contra o Mal. Nada é tão perigoso quanto a certeza, o dogmatismo, a fé cega ou louca.
Nietzsche propõe pensarmos para além do Bem e do Mal: "Perguntai aos escravos quem é o "mau"?, e apontarão a personagem que para a moral aristocrática é "bom", isto é, o poderoso, o dominador" (GM, pref. XI). Então, o Bem e o Mal, dependem da perspectiva e dos interesses de quem julga. Deveríamos nos colocar no lugar do outro. Por exemplo, por quê Bin Laden é um homem "mau" para o ocidente-cristão e, é herói "bom"  no oriente islâmico? Por quê algumas igrejas fazem show contra o Mal, mas terminam mais falando das terríveis forças do Mal do que do Bem?
atitude cética é defendida como o melhor remédio contra o maniqueísmo. O cético suspende o juízo, não toma partido, não se rende ao simplismo de encurralar o pensamento entre a paredes do Bem e do Mal, do certo e errado. Suspender o juízo não quer dizer inação; significa elaborar um melhor pensamento para além da solução dualista, ou seja, um agir com sabedoria. 
Eu particularmente acredito que conseguiremos lidar com o maniqueísmo e seus efeitos sobre nós se passarmos refletir a respeito de quem somos, se pensarmos na nossa capacidade fazer o mal para defender aquilo que julgamos ser o bem. Pensar a respeito de nossas motivações e a sobre do pano de fundo por trás de nossas decisões, convicções e verdades. É preciso fazer a crítica da crítica e deixar o orgulho de lado para ser abrir ao novo, para aprender a respeitar as diferenças e a ser mais tolerante com o diferente. 

Temos uma grande tarefa pela frente para prevenir o maniqueísmo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Afinal, qual o padrão de beleza da pós-modernidade? De Gisele a Valesca Popozuda


Valesca e Gisele 

Em cada época é fácil identificar o apreço generalizado por um ou outro tipo físico, dos corpos roliços aos mais secos, das barriguinhas pronunciadas aos abdomens tanquinho, dos seios minúsculos aos bustos siliconados. Perceber criticamente os padrões de beleza pode contribuir para desmistificá-los e abrir possibilidades para além de suas idealizações.  São as reflexões críticas que nos permitem romper com as condições petrificadas ideologicamente.
Na Pré-História, o corpo era arma de sobrevivência, a fim de caçar e correr dos predadores, mas nas primeiras civilizações, os treinos e as atividades sempre estiveram voltados a necessidades coletivas, como guerrear”, diz Denise Bernuzzi de Sant’Anna, professora de história da PUC-SP, autora dos livros Corpos de Passagem e Políticas do Corpo.
Em outros períodos, a religião moldou a visão coletiva das questões relativas ao corpo. “Como o corpo era considerado sagrado, a Igreja proibia dissecações e estudos de cadáveres”, diz Luís Ferla, professor de história da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Só entre os séculos 15 e 16 despontou uma nova perspectiva, mais individualizada. Um processo que perdura e se radicaliza até hoje.
Na atualidade temos basicamente três referências de beleza, o padrão miss universo, da Ieda Maria, o padrão passarela, tipo Gisele Bundchen. Ou o padrão mais cheio de curvas, da Valesca Popozuda.
Com o boom das blogueiras fitness, podemos perceber que o ideal contemporâneo é o ideal de um corpo completamente enxuto, compacto, firme, jovem e musculoso. Ser magro, esbelto, não basta, a flacidez, a gordura e as imperfeições devem ser corrigidas e eliminadas, pois a carne não deve mexer-se e o corpo deve ser firme, harmonioso e sem a presença das marcas do tempo. De acordo com a autora citada o corpo musculoso e tonificado é o sinal mais evidente de um comportamento correto, em compensação o corpo gordo e sem músculos é julgado com desprezo, pois indica falta de cuidado.
 Socialmente o corpo musculoso e tonificado confere não apenas atributos físicos, mas está associado ao cuidado intenso com o corpo, sucesso profissional e sentimental, símbolo de virilidade masculina e sinônimo de ostentação feminina.  O corpo transformou-se numa ditadura do corpo, valendo se utilizar de todos os aparatos científicos e tecnológicos que o mercado dispõe para que, de fato, as pessoas possam se enquadrar no modelo dito ideal. Nesse sentido, na busca pela musculatura firme e definida, características que configuram a beleza do corpo atlético, o uso indevido de suplementos alimentares, medicamentos e anabolizantes, objetivando aumento e definição muscular em curto prazo reflete a maneira drástica como os homens vêm lidando com o próprio corpo, na promessa de possuir um corpo belo.
Nesse sentido, compreendemos que na busca excessiva pelo corpo jovem, tonificado, sem imperfeições, sem gorduras e atlético, potencialmente arquitetado e construído pelo próprio homem, parece surgir uma nova forma de dualismo. No entanto, não mais o dualismo que opõe a alma ao corpo, mais sutilmente aquele que opõe o homem ao corpo, no sentido em que, diante das inúmeras possibilidades de intervenção corporal, se modificando a aparência, o próprio homem é modificado.
Para tanto, como podemos evidenciar a harmonia dos movimentos, a magreza e os músculos conferem um modelo de corpo ideal. Corpo simétrico, esbelto e musculoso, construídos e difundidos socialmente como símbolo de beleza e como tal, sinônimo de desejo de muitos.
As discussões ressaltando o interesse, a busca e os investimentos de homens e mulheres por um corpo bonito, magro, saudável e atlético, é uma questão que cotidianamente pode ser percebida através dos mais diferentes discursos presentes na sociedade, como por exemplo, revistas, jornais, programas de televisão, rádio, cinema, internet, academias, clubes, dentre outros.
Entendemos que os discursos e as representações publicadas de um padrão corporal a ser seguido, constroem um sentido e vendem uma imagem determinada sobre a beleza. Sendo esse discurso, por vezes, ao adentrar em nosso cotidiano, construidor de determinadas verdades.
Em A ordem do Discurso (1996), Michel Foucault lembra essa questão e diz que a produção do discurso é controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certos procedimentos, que se desloca constantemente, construindo verdades. Para o autor, o discurso é fruto das relações entre as interdições e a apropriação social das falas:
    [..] é muito abstrato separar [..] os rituais das palavras, as sociedades de discurso, os grupos doutrinários e as apropriações sociais. A maior parte do tempo, eles se ligam uns nos outros e constituem espécies de edifícios que garantem a distribuição dos sujeitos que falam nos diferentes tipos de discurso e a apropriação dos discursos por certas categorias de sujeitos (FOCAULT, 1996, p. 44).
Nesse sentido, o corpo e a beleza estão presentes em nosso cotidiano, construídos, moldados e marcados pelo contexto de vida dos indivíduos, onde as trocas e escolhas pessoais são constantes, ou seja, construímos nosso próprio modelo de beleza, mas não há como negar que somos bastante influenciados nesse processo, pelos discursos que nos cercam. Entretanto, é preciso refleti-los, buscando lembrar que não falamos simplesmente de objetos, mas de corpos, de sujeitos, que tem escolhas, sentidos e desejos, por vezes, diferentes.
Dialogando com Foucault (1998), ao falar sobre a sexualidade, o discurso que se fala e se cala na vontade de saber sobre o sexo, podemos tomar como referência o corpo e a beleza, que tal como o sexo perpassam sobre discursos de poderes. Quanto a isso, ele afirma que, os discursos [...] nem são submetidos de uma vez por todas ao poder, nem opostos a ele [...] o discurso veicula e produz poder; reforça-o mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo. (FOUCAULT, 1998, p. 111-112).

Pré-História


A Vênus Paleolítica




Pouca gente seria capaz de achar sexy a moça rechonchuda representada nesta escultura. Pois os arqueólogos que encontraram a peça de 28 mil anos acreditam que ela represente um modelo de beleza feminina valorizado por nossos antepassados das cavernas. A Vênus de Willendorf, uma escultura de apenas 11 cm, pode ter sido usada em rituais de fertilidade, já que carnes generosas durante muito tempo foram consideradas propícias à procriação.






 
1.200 A.C - As primeiras academias

 Na Grécia, a educação física eraconsiderada um pilar da formação dos homens, que desde meninos frequentavam os gymnasiums, complexos esportivos quetambém eram centros de formação intelectual. Ali, além de treinar para setornar soldados ou competir em jogos públicos, os garotos estudavam filosofia,literatura e música. Havia estabelecimentos específicos paratreinamento de boxe e luta, as palaestras.Os atletas se exercitavam sem roupa (gymnos significa “nu” em grego).









Século I

Mente sã corpo são 
   

   O poeta romano Juvenal que viveu entre os séculos 1 e 2 foi quem cunhou a expressão men sana in corpore sano. Embora deslocada de seu significado original (Deve-se orar por um por uma mente sã em um corpo são, a citação atravessou milênios. No império Romano, os treinos militares com marchas e exercícios pesados, forjaram soldados fortes e atléticos.  








Idade Média

Mergulho nas Trevas 
Sob a influência da Igreja, foram abandonados os hábitos de higiene e saúde herdados dos gregos e romanos. “Cuidados com o corpo eram considerados pecaminosos”, diz Denise Sant’Anna, professora da PUC-SP. Qualquer preocupação estética era vista como afronta às leis divinas. As obras de arte mais escondem que evidenciam os corpos.

1450

O redescobrimento da anatomia
Leonardo da Vinci é o maior dos “artistas-anatomistas” do Renascimento. Encheu vários cadernos com anotações e desenhos sobre o funcionamento de órgãos, ossos e músculos, que estudava dissecando cadáveres. Reproduzida à exaustão, uma das ilustrações dos diários, o Homem Vitruviano (1490), expressa as proporções matemáticas do corpo humano.

Renascimento

Das Virgens às Vênus 


 O Renascimento resgata valores humanistas e artísticos e o apreço pelos padrões de beleza da Antiguidade. A Virgem Maria, musa dos pintores medievais, cede espaço para representações da deusa Vênus, ninfas e semideuses despidos. As mulheres exibem longos cabelos, formas roliças e voluptuosas e até uma barriguinha pronunciada. Um dos quadros da época é O Nascimento de Vênus (1485), de Botticelli.




Pintores e escultores renascentistas desafiaram a Igreja e deixaram até Jesus Cristo praticamente nu. Deuses, heróis gregos e bíblicos e santos e anjos exibiam músculos definidos, corpos sem pelos e mostravam até os pênis, sem pudor. O maior ícone desse resgate é Davi, de Michelangelo, considerado até hoje modelo de perfeição das formas masculinas.






O homem nu

1900

O pai da musculação

O prussiano Eugen Sandow (1867-1925) enxergou na musculação um filão inexplorado. Bolou alguns dos primeiros equipamentos, criou a primeira competição oficial de fisiculturismo (em 1901) e lançou a primeira revista especializada no gênero, a Physical Culture.

Entre os anos 1920 e 30 surgiu a expressão sex-appeal. Ela tentava explicar a sensualidade no jeito de andar, de falar e até de encarar os homens. Nos chamados Anos Loucos, as mulheres, incorporadas ao mercado de trabalho, adotaram um visual andrógino, com cabelos curtos e seios e quadris disfarçados em vestidos retos. Em 1925, o corte de cabelo à la garçonne era usado por uma em cada três mulheres.
Os astros de Hollywood foram as grandes referências de beleza e forma física durante os anos 40 e 50. Sexy, voluptuosas, com quadris largos e seios fartos acentuados pelos sutiãs com enchimento, divas como Rita Hayworth e Jayne Mansfield encarnaram a femme fatale. Mas a morte prematura consagrou Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual de todos os tempos.

sex-appeal - 1920

Seios fartos, cintura fina e quadris avantajados configuram a silhueta da mulher-violão. O cinema europeu é pródigo em exportar divas nesse padrão, como a francesa Brigitte Bardot. Em contraste, as revistas de moda exaltam um tipo magricela, com jeitão de garoto, cabelos curtos e ausência de curvas, personificada pela inglesa Twiggy, a maior top model da época.

Tempo de liberação sexual e igualdade de direitos entre homens e mulheres. Os padrões de beleza masculinos sofrem mudanças drásticas. “As distinções ficaram mais tênues; os homens deixaram crescer os cabelos, ficaram menos musculosos e usaram roupas unissex”, diz a professora Denise Sant’Anna. Astros do rock como Mick Jagger e David Bowie consagram o visual andrógino.

Em 1966, o austríaco Arnold Schwarzenegger era um entre milhares de fisiculturistas. Tudo mudou após ser eleito Mr. Olympia por seis vezes, de 1970 a 1975. Na década de 1980, ele se tornou referência para gerações de praticantes de musculação depois de aparecer em filmes como Conan, o Bárbaro e O Exterminador do Futuro. Em 1989, criou o Arnold Classic Weekend, um dos mais prestigiados eventos mundiais de fitness.

Hollywood - 1940
Fitness para todos: a democratização do videocassete deu impulso ao surgimento dos vídeos com aulas de ginástica para fazer em casa. O mais célebre deles foi o Jane Fonda Workout Video, lançado pela atriz americana em 1982, reunindo exercícios de força, flexibilidade e resistência. Fonda nunca mais parou: na sequência, produziu mais 23 fitas e seis DVDs, o último deles lançado em 2012, aos 74 anos.

Modelos sempre ditaram padrões de beleza. Mas foi diferente com Cindy Crawford, Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Linda Evangelista e Kate Moss, as top models da virada dos anos 1980 para 1990. Altas, magras, curvilíneas sem exageros, dominaram passarelas, capas das revistas e campanhas das grandes marcas a ponto de seus anos de glória terem sido batizados de A Era das Supermodelos.

A indústria do consumo tem o objetivo de vender seus produtos, sejam eles: Cigarros, carros, cervejas, roupas, calçados, ou até mesmo comidas, com o corpo da mulher. Hoje o corpo feminino vende tudo, mas esta imagem de corpo perfeito, esta espetacularização da moda, tem trazido consequências drásticas à nossa sociedade, milhares de pessoas insatisfeitas consigo mesmas e seus corpos em frente ao espelho só lhes mostra defeitos, as pessoas não enxergam mais sua beleza interior, existe sim um vazio enorme em seu interior, pois querem ser o que não são, querem ser como as modelos das capas de revistas e comerciais.

Mister Músculos - 1980 
Estes efeitos causados pela indústria do consumo, na sociedade, só lhes trás mais crescimento e sucesso, por que pessoas insatisfeitas correm às lojas para comprarem objetos afim de satisfazerem seus desejos, acabar com a ansiedade, aumentar sua auto estima. Mas esses prazeres são passageiros, pois logo após alguns segundos, já querem outro produto, pois o que comprara a pouco tempo já se tornou obsoleto, tudo isso devido a vida líquida em que vivemos nessa sociedade moderna, onde nada se firma, não dar tempo as coisas tomarem forma, os avanços são constantes, as modas passageiras, a cada minuto surge uma nova tecnologia.

1982 - Ginástica em casa
A indústria do consumo tem o objetivo de promover inconscientemente a insatisfação e não a satisfação, como muitas pessoas pensam e se deixam influenciar. Pessoas satisfeitas, bem humoradas, com auto estima não precisam da paranoia de viver comprando desenfreadamente, ou viver correndo atrás das coisas que estão na moda, a qual muda todo dia, trazendo assim um desgaste constante, viver trocando carro, celular, roupas, calçados; Pessoas bem resolvidas consomem mais ideias do que estética. A cada dia as pessoas estão sendo vistas por essa indústria de consumo, como mais um número de cartão de crédito, mais um comprador em potencial, e não como uma pessoa que deve ser valorizada por sua inteligência, capacidades e beleza interior.

1990 - Super Modelos


























Não importa o que as indústrias da moda, da beleza, do consumo e os meios de comunicações nos impõem, ou os produtos que colocam no mercado, prometendo milagres da beleza, do rejuvenescimento, dizendo que isso fará ser bem aceito na sociedade e ter ascensão social, não adianta está se matando para atingir o inatingível, pois cada pessoa tem uma beleza única, e devem ser aceitas como são, se cuidar e ser vaidosa faz parte da natureza de cada mulher, mas não chegar ao ponto de se deixar escravizar por isso. O envelhecer é nosso destino, viver feliz e com dignidade deve ser nossa meta.

Dessa forma, compreendemos que as concepções de corpo e de beleza aqui explicitados estão pautadas em relações de poder, pois os discursos que enxertam e constroem esse entendimento, estão ligados às relações históricas e culturais de uma sociedade, em outras palavras, em qualquer sociedade o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõe limitações, proibições ou obrigações (FOUCAULT, 1987, p. 118).
Portanto, compreender os discursos acerca do corpo e da beleza, seria compreender as relações históricas, as práticas sociais e corporais que envolvem os seus discursos, haja vista, essas relações produzem um campo de saberes na sociedade ao intervir nos discursos das pessoas.
 Sendo assim, ressaltamos o discurso como uma construção social, não individual, e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social, uma vez que, reflete uma visão determinada, necessariamente, aos autores e à sociedade em que vivem. São, portanto, carregados de sentidos que não sabemos como se constituíram, mas que estão amarrados em significados e histórias individuais e coletivas,  amarrada às dinâmicas de poder e saber de um tempo.
No corpo que se manipula, se modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam, encontra-se facilmente sinais do alvo de poder. Um poder que não é unilateral. O corpo dócil, como denomina Foucault (1987), que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado, modificado e aperfeiçoado, também pode exercer o poder e produzir saberes diversos.
Cabe assim, refletirmos quais os discursos da beleza que permeiam a sociedade, Essa experiência deve transcender os modelos ditos “ideais” para serem tomados e ancorados pelo deslumbramento e sensibilidade que os nossos olhos podem contemplar.
Essa experiência deve transcender os modelos ditos “ideais” para serem tomados e ancorados pelo deslumbramento e sensibilidade que os nossos olhos podem contemplar. Compreendemos aqui a partir de Nóbrega (2003, p.139) uma descrição fenomenológica de beleza, onde outros sentidos são considerados para além do modelo clássico de beleza:
    O belo não é uma idéia ou modelo, precisa ser experimentado, vivido, solicitando assim, a sensibilidade, como convite a contemplação. Na descrição fenomenológica, o belo não é uma forma idealizada ou uma redução ao gosto exclusivo do sujeito, mas uma articulação que acontece na percepção como interpretação dos sentidos proporcionados pelos jogos expressivos do corpo.
Dessa maneira, corpo e beleza como campos de reflexões, discursos e intervenções sociais, possuem múltiplos significados que variam ao longo do tempo, fazendo com que um indivíduo nunca seja considerado totalmente belo, ou seja, belo em absoluto, mas de forma relativa, já que esse conceito varia ao longo do tempo e das culturas. Isso ocorre, porque as culturas abarcam as dinâmicas, rupturas e conflitos de geração, de modo que, não apenas a concepção, mas o próprio “gênero” de beleza é modificado (VIGARELO, 2006).
É possível perceber que essas transformações temporais e coletivas, constituem as concepções de beleza dos indivíduos. Logo, os discursos a cerca da beleza, não podem ser reduzidos a contemplar e divulgar um único modelo, já que são múltiplas as interpretações da beleza criadas na história que podem ser revividas e resignificadas (VIGARELO, 2006, p. 157).


Bibliográfia:

  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. Tradução Raquel Ramalhete. 31. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.
  • ______. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyda, 1996.
  • ______. História da sexualidade I. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
  • VIGARELLO, Georges. A história da beleza: tradução Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
  • NÓBREGA, Terezinha Petrucia da. Corpo de tango: reflexões sobre gestos e cultura de movimento. In: LUCENA, Ricardo; SOUZA, Edílson (Org.). Educação Física, esporte e sociedade. João Pessoa: UFPB, 2003













  

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ser ou estar

Ser ou estar 

Quando o sujeito aprende a diferença entre o ser e o estar,  compreende que suas colocações, seu comportamento podem sinalizar um estado transitório, passageiro, apenas depende dele a escolha, a busca pelo melhor caminho a seguir.


Ser e estar são colocações verbais distintas, trás em suma sentimentos e emoções que de primeira transmitem algo único, fixado na alma, mas é apenas uma das formas de existir no universo. 
Longe de serem estáticas as mudanças ocorrem de forma natural até para o meio ambiente, mudar exige renovação, assim o universo interno e externo adquire novos contornos. A evolução do ser é importante, denota desenvolvimento, crescimento e por vezes amadurecimento, este último nem sempre vem acoplado ao progresso pessoal.
Ser remete a um estado "permanente", mas o que de fato é inalterável na vida, as pessoas, nas relações?  Quase tudo padece alteração. Os indivíduos sofrem influencia externas o tempo todo que alteram o psiquismo, o organismo e as relações sociais.
O ser humano em sua trajetória passa por períodos de transição, alguns reconhecem essas estações como crise.  Tais tensões proporcionam eventos existenciais que permitem ao individuo modificar sua maneira de ver, suas atitudes em relação aos fatos pretéritos, além de apontar outros caminhos, mais adaptáveis e adequados, que tragam menos sofrimento.
Transmutar, entre o ser e o estar ajuda a compreender que as oscilações no transcurso da vida permitem que o sujeito possa também organizar suas emoções, equilibrar sensações e assegurar melhor seus pensamentos. 
No momento em que as situações difíceis se apresentam o individuo está em dificuldade, mas ele não é a própria dificuldade, o que muda é a forma de se colocar, o que trás certa proteção, pois o sujeito entende que a turbulência é passageira, bem como tais pensamentos que não o deixam progredir.
Ser dono dos seus pensamentos e atos dá ao sujeito a possibilidade de construir sua felicidade em campos de base solida regular.  As emoções, os acontecimentos, sempre estão, nunca são fixos, contudo deve sempre que possível buscar o equilíbrio. 
Quanto ao ser ou estar, o fundamental é procurar ser feliz, estando feliz, ou seja, extinguir o mal, cultivar o bem. Trazer para o presente, lembranças de bons acontecimentos, fixarem no sentido de valorizá-los, trabalhar, sintonizar nas boas expectativas futuras.. 


Cada pessoa possui em seu interior subsídios que quando afetuosamente utilizados asseguram e propiciam bem estar, identificar tais elementos contribuí para aceitação dos fatos, bem como auxiliam na mudança de atitude.




Quando aprendemos a diferença entre ser e estar, compreendemos quem somos, quando somos e onde estamos!

Forte Abraço,

Helen Fernanda Abreu Pereira