
Preguiçoso, acomodado, glutão. Estes e outros adjetivos depreciativos são, com freqüência referenciados a pessoas obesas que, ao senso comum, parecem simplesmente não se esforçarem para perder peso. O problema desta avaliação é que ela ignora que a obesidade muitas vezes não é mera conseqüência da baixa atividade física ou de um estilo de vida sedentário. Ou seja, nem sempre a obesidade e a permanência do indivíduo nesse estado podem ser explicadas por razões puramente fisiológicas.
A obesidade é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a epidemia do século. Dados recentes revelam que 48,1% da população adulta no Brasil está acima do peso e 15% são obesos. A doença que aumenta de forma alarmante no Brasil e no mundo, é multifatorial e o componente psicológico exerce papel importante nesse cenário. Psicólogos e psiquiatras discutem fatores psicológicos que estão por trás da obesidade e como os recursos da Psicologia e da Psiquiatria podem ser importantes para pessoas que se submetem às cirurgias bariátricas (redução de estômago).
À obesidade podem estar atrelados transtornos psicológicos graves. As necessidades emocionais específicas de pessoas obesas tornam o processo de emagrecimento uma luta frustrante e de resultados geralmente temporários, conseguido por meio de dietas e “pílulas milagrosas” que ignoram possíveis fatores emocionais ligados ao ato de comer. Em entrevista concedida à revista Psique Ciência e Vida, a Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Corporal Mary Scabora afirma que “o objetivo no tratamento da obesidade deve ser estabelecer uma relação saudável entre o indivíduo e a comida, de forma que esta perca a função de nutrir os afetos”.
De acordo com a profissional que coordena no Rio de Janeiro o projeto Integração, de tratamento multidisciplinar de emagrecimento para o obeso, o ato de comer tem uma significação única, que vai além da mera obtenção de energia, relacionando-se na verdade com suas funções mais primitivas.
Na literatura psicanalítica, a boca é o primeiro acesso de comunicação com o mundo externo. É na fase oral que constituímos esta relação e que temos contato com sentimentos como o prazer, satisfação, amor, agressividade, raiva, privação e medo. Pessoas obesas comumente usam a comida como um substituto emocional, recorrendo a ingestões elevadas e compulsivas de alimentos para fugir do enfrentamento de decepções, frustrações ou acontecimentos que os deixam ansiosos. Nestas condições, de acordo com Mary Scabora, o excesso de comida cumpre o papel de preencher o vazio existencial.
Ainda que não seja possível estabelecer um perfil da pessoa obesa, já que a forma como esta lida com sua condição depende de fatores sociais e ambientais, como por exemplo, o desconforto com a aparência depende muitas vezes de o obeso ter vivido ou não situações em que foi ridicularizado devido a seu peso. A doença não raro, é acompanhada de déficits psicológicos, como, baixa autoestima, ansiedade, sentimento de culpa, depressão e insegurança. Este quadro pode resultar em transtornos alimentares.

Como podemos ver, o sofrimento da pessoa obesa vai além das dificuldades para comprar roupas, caber em assentos públicos, ficar pouco atraente (nos moldes sociais) “pensar como gordo”! É um problema de saúde pública que envolve questões físicas e psicológicas. Além disso, não existe uma receita de bolo para combater a obesidade, é necessário entendermos que cada pessoa é única e que a obesidade é uma expressão psicossomática do indivíduo.
Pensem nisso e até a próxima!
Helen Abreu
Helen Abreu
Dica de Livro:
Livro Obesidade e Sofrimento Psíquico, da psicóloga Patrícia Spada, coordenadora do curso "A Psicologia nos Distúrbios Alimentares", ministrado pela Unifesp tem como objetivo mostrar como a psicologia é capaz de explicar a doença e ensinar as pessoas a se controlarem em relação à alimentação sem enxergar isso como uma tortura.
"Muitas vezes a obesidade está ligada a algum problema emocional que a pessoa enfrenta. Como não consegue resolvê-lo, acaba descontando na comida sua frustração e seus medos", explica Patricia Spada , psicóloga e autora do livro. Para escrever o livro, a psicóloga baseou-se em casos reais que acompanhou ao longo de sua experiência profissional com obesos. O livro conta ainda com uma série de observações e alertas como controlar a ansiedade, estabelecer metas e não se abater com os deslizes, para quem quer deixar de ser obeso com saúde e disposição.
Dica de Filme:
O filme Gordos do diretor espanhol Daniel Sanchez Arévalo, leva às telas o debate sobre o tratamento de um grupo de pessoas com problemas de obesidade, complexos e fobias, obsessões, traumas, medos, culpas, desejos, amor, sexo e saúde. A película fala não apenas da ditadura do físico, mas também da solidão e da falta de autoestima de quem sofre com a obesidade. Gravado em dez meses um dos protagonistas engordou 40 quilos e outro emagreceu 25. Não se trata apenas de um filme de autoajuda, mas via além. É arte que faz pensar, é filosofia que comove, é entretenimento que emociona.
Fonte: Revista Psique Ciência e Vida - Ano VI nº67
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