quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Desejo e adição nas relações de consumo

Uma vez que o consumo é um elemento extremamente – senão central – na experiência do homem contemporâneo, várias são as discussões a respeito dele em termos psicológicos. Na literatura existente sobre o tema, alguns aspectos insatisfatórios são reiteradamente repetidos: uma definição muito pobre da distinção entre desejo e necessidade; e a concepção segundo a qual todo consumo implica uma dimensão alienante.
Nos dois aspectos, encontramos uma dimensão moralizante que vê no consumo algo intrinsicamente negativo.
Só seria legítimo um consomo que  se circunscrevesse ao campo das necessidades. Com o distanciamento progressivo delas, viria um consumo de supérfluos, cujo o extremo seria representado pelo consumo de luxo. Mas o que se entende aqui como necessidade? De forma generalizada e crítica se identifica o termo “necessidade” ao campo biológico: alimentação, abrigo, fuga do perigo. E qual é a direção que leva ao impróprio? Aquilo que diz respeito aos desejos e fantasias das pessoas. Para um psicanalista, esta distinção na faz sentido. O que pode parecer o apoio na base sólida da Biologia para a definição de necessidade e excesso ou  desejo, oculta um discurso moralizante, que recrimina o prazer.
                No outro aspecto do insatisfatório, o discurso toma ares apocalípticos. O consumismo contemporâneo anuncia uma decadência dos valores humanos. O consumo existiria de fato por interesse corporativos e os consumidores consistiriam simples massas de manobra a serviço daqueles interesses. Nesse caso, podemos reconhecer elementos importantes na construção de uma sociedade de consumo. Mas o tom persecutório e unilateral levanta também suspeitas. As pessoas seriam assim tão facilmente manipuláveis?  O consumo teria adquirir o papel que tem em nossa cultura sem encontrar nenhum lastro em necessidades legitimas das pessoas?
                O consumo é, hoje, uma questão crucial na experiência do homem contemporâneo. Objeto complexo, pode ser abordado das mais variadas perspectivas: econômica, antropológica, sociológica, filosófica e até teológica. A psicanalise também pode contribuir para a sua compreensão, como desdobrado por Pedro Luiz Ribeiro de Santi, no livro Desejo e adição nas relações de consumo (São Paulo: Zagodoni Editora 2011). Nele, Santi, sustenta a tese de que o consumo pode ser um veículo legítimo para construção do desejo e da subjetividade. Há uma modalidade específica do consumo que o leva para um caminho, agora sim, alienante: a compulsividade. Mas é imprescindível estabelecer uma distinção entre esses caminhos.
ALIENANTE OU ROMANTICO?
                Ninguém questiona o fato de que todo ser vivo consuma algumas coisas como forma de sustentar a sua vida. Oxigênio, alimentação, luz em alguns casos. Sempre se consumiu e sempre se consumirá. Mas entre este fato e a criação do substantivo “consumo” ou a criação da categoria “consumidor” há uma passagem de significação. O consumo é o termo associado fortemente ao mundo capitalista.
                É mais recente a ideia de que uma sociedade de consumo acabe por gerar um descontrole patológico em cada vez mais pessoas. É justamente nos Estados Unidos, o país mais associado a uma cultura do consumo, que surgiu uma preocupação sistemática com isso. Parece haverá algum ponto de inflexão a partir do qual a pessoa deixa de ser capaz de discernir e regular as suas ações e escolhas e passa então de fato a ser levado, compelido a consumir. Em inglês, recorre-se sempre ao termo driven.
                Contudo, Santi, não considera que o consumo seria uma expressão de um materialismo que busca acúmulo de bens, nem uma vitória do discurso técnico e impessoal da modernidade. Quase que pelo contrário, ele estaria profundamente entranhado no Romantismo, com sua valorização extrema da singularidade. O consumo seria hoje, um lugar privilegiado para a fantasia e um modo primário de expressão e exploração de nosso gostos individuais ( nossa sensibilidade em linguagem romântica). A perspectiva quebra o clichê segundo o qual nossa sociedade só se preocupa com bens materiais  e se afastou da espiritualidade. O nosso consumo não está ligado exclusivamente ao uso do objeto de que se trate, mas envolve características experiênciais, de sensação e fantasia.
                Há uma definição de desejo por Freud uma peculiaridade: a ideia de que nossos desejos não tem objetos naturais. Freud concebe que o homem teria perdido uma série de engates biológicos (instintos), em favor de sua capacidade única de adaptação e transformação da natureza. Desse processo, resulta que sentimos faltas, delas surge um impulso na direção de dar conta delas, mas, tendo, perdido os comportamentos reflexos que poderiam ser ações específicas para dar conta da falta, encontramos objetos privilegiados para a ligação de nossos desejos no ambiente no qual nos constituímos.
                Qual o interesse desse desenvolvimento para uma pesquisa sobre consumo? Bem, trata-se da compreensão de que o desejo humano não tem objetos naturais legítimos. Ele implica num processo ligado à própria condição da vida. E esse excesso procurará por objetos contingentes em busca de satisfação. O nascimento da experiência de consumo tal como conhecemos no mundo moderno parece se encaixar perfeitamente com a necessidade de novos objetos que caracteriza o próprio movimento do desejos.
FALSAS NECESSIDADES
                Outra discussão de interesse é aquela segundo a qual o consumo se apoia em falsas necessidades, criando um estímulo para o interesse por objetos supérfluos, no apelo por uma prazer excessivo, antinatural e, por isso, reprovável moralmente. Ora, a base dessa argumentação é o pressuposto de que existam objetos primários e legítimos para nosso desejo.
                Quando se diz que uma pessoa pode procurar o consumo como substituto de uma outra satisfação que não pode encontrar na vida pessoal, sexual ou profissional, isso informa sobre uma condição importante do desejo: sua independência com relação ao objeto específico, o que permite que haja um deslocamento para outros objetos. Com isso, a Psicanálise está plenamente de acordo. Mas então há a presunção de que ele estabeleceria um movimento ilegítimo, uma vez que o desejo anterior seria mais verdadeiro.
                O que se pode deduzir é que o desejo que se configura em torno de fantasias e comportamentos de consumo não é necessariamente secundário, substituto de outro campo mais legítimo. A subjetivação e a construção dos desejos singulares de um sujeito se realizam em suas ações, desejos e fantasias. Não há um campo representativo ou experiencial que se afigure como primário ou privilegiado. Numa sociedade de consumo, é também através de seu consumo que um sujeito se configura.
                Podemos dizer que o homem tem a necessidade primária de prazer, excesso, diferença. As experiências humanas que não propiciam esse campo impõem ao homem uma subexistência, uma sobrevivência pobre e insuportável. Tudo leva a crer igualmente (embora não tenhamos condição de desenvolver mais esta argumentação aqui) que todo homem busca também primariamente relação com outros. Tais necessidades são concomitantes às biológicas e não se seguem a elas. Não somos os primeiros animais que, apenas depois de supridas suas necessidades biológicas, passam a ter anseios e experiências humanas.
                Vivendo num pais subdesenvolvido e marcado por diferenças sociais extremas, estamos habituados a ter boa parte de nossa melhor arte vinda de favelas ou de pessoas marcadas pela exclusão social. Parece bastante claro que pessoas famintas são desde sempre pessoas com anseios por realização, reconhecimento, prazer.
                Mas a conotação moral da distinção entre necessidade legítimas e desejo supérfluos é poderosa. Ela faz inclusive com que consumidores constrangidos procurem regularmente justificar seu consumo com enunciados como: “mas eu precisava”,” mas era uma oportunidade imperdível”, “o produto mais caro dura mais, logo, de fato, foi uma economia”.
                Por diversos caminhos percebemos , contemporaneamente, uma inflexão, na relação que estabelecemos com os objetos de consumo. No consumo compulsivo, temos uma amarração da impulsividade da pessoa num comportamento específico: consumir. Sua consecução se torna imperiosa e independente do desfrute ou uso do objeto ou bem consumido. O meio se torna um fim em si: consumir é a própria finalidade do ato.
IMPERATIVO DO GOZO
                A cultura contemporânea parece nos impor um imperativo de gozo imediato, sem todas aquelas condições de restrições do desejo e obediência à lei do mundo moderno, até há poucas décadas. Assim, pode ser uma proposta promissora trabalhar os conceitos derivados do estudo das compulsões ( e também dos vícios e das perversões, numa compreensão psicanalítica) para compreender o consumo contemporâneo.
                Numa compreensão básica sobre o funcionamento do desejo, da perspectiva psicanalítica, podemos concebê-lo como engajado num ciclo. Parte-se de uma experiência de desconforto, inquietude, falta; essa sensação acaba se ligando a um objeto, cujo acesso ou posse passa a ser fantasiado como tendo o poder de dar fim àquele desconforto. Há assim um anseio de encontro com o objeto. Obtido o prazer da conquista do objeto e garantido o acesso a ele, ao longo do tempo o prazer arrefece e tenderá a não poder mais ser encontrado através do mesmo objeto, agora acessível. Nova inquietude nasce e irá requerer novos objetos. O desejo tende a sempre se deslocar de um objeto a outro. Ainda que, ao longo do tempo, ele se mostre decepcionante, uma vez que a expectativa de fim do sofrimento nunca é atingida. No desejo, a ânsia, pela realização se defronta com a alteridade: o mundo externo que frustra, não apresenta as coisas como e quando as queríamos. O desejo se constrói num jogo de forças que buscam compromisso. O sujeito tem alguma condição de contenção de anseio.
DEPENDÊNCIA DO PRAZER
                Nos vícios ou compulsões, parece haver uma aceleração no ciclo de desejo. Mas a mudança quantitativa se desdobra numa consequência qualitativa. Em termos psicológicos, podemos denominar algum comportamento como vicio (adição) quando acontece a seguinte diferença com relação ao desejo: ao invés de buscarmos um acréscimo de prazer, passamos a depender daquilo de que se trata para atingirmos um patamar básico de conforto, como na expressão vulgar do alcoólatra: “ Eu só fico normal depois da segunda dose”. Agora o sentimento não é simplesmente de falta ou anseio, mas de verdadeira urgência e necessidade. A obtenção do objeto é condição para a manutenção do sentimento de si, que ameaça se desfazer se não puder vislumbrar o próximo acesso ao objeto. O paradigma do vício é o das drogas como a cocaína ou o do crack: vícios terríveis nos quais a pessoa vive em função de saber como obterá próxima dose. Todos os demais interesses e valores da pessoa são esvaziados para a fenda daquela urgência. Ela se torna compulsiva e desesperada, não obtendo propriamente prazer, mas, sim, um alívio momentâneo.
                O homem moderno, aquele descrito por Freud e Max Weber no inicio do século 20, é (ou foi) um homem moldado pela renúncia ao prazer imediato e voltado para o futuro. Ele faz poupança e, para tal, é capaz de se conter e reter parte de seu ganho. O homem contemporâneo, nascido entre os anos 50 e 70 do século 20, é o homem do crédito e do consumo compulsivo. O primeiro, estruturado internamente, ao custo da neurose; o segundo, dependente de uma estruturação externa que lhe dê contornos. Trata-se aqui de poder relacionar modos de funcionamento metal e as condições culturais nas quais cada indivíduo se encontra e constrói a sua experiência.
                As considerações da Psicanálise sobre o funcionamento do desejo humano sempre lideram com a questão da “falta”. A insatisfação e inquietude constante das pessoas eram experimentadas como contingentes a falta ou inacessibilidade de objetos que dessem conta de nossos anseios. Na fantasia de quem se vê privado de seus objetos de desejo, sua posse produziria a satisfação ansiada a o fim da dor. Contemporaneamente, temo de nos haver com uma situação nova: o excesso de acesso, ao que quer que seja, nos fez encarar a contrapartida daquela situação. O acesso fácil aos bens e objetos a camadas cada vez mais amplas da população é socialmente muito bem vindo, mas não traz a felicidade que se poderia imaginar. Ela acaba por gerar algo, entre a voracidade compulsiva o tédio e desânimo ante a impossibilidade de absorvermos e usufruirmos tudo aquilo que se nos apresenta.

Boa reflexão!

Abraço
Helen F. Abreu Pereira


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