Hoje em dia tornou-se muito comum
ouvir as pessoas dizerem que tiveram ou viram alguém “surtar”. Mas afinal, o
que é um surto e como identifica-lo?
Todos os dias, Samantha vai com seu carro para o trabalho. O carro
já está um tanto fragilizado, mas realiza o percurso com sucesso. Um dia, Samantha
decide subir uma ladeira com seu carro, porém a tarefa exige muito mais do
automóvel do que ele estava acostumado, e por isso ele quebra.
Imagine agora que o carro de Samantha não é mais um
automóvel, mas a sua mente. O trabalho é sua rotina. E a subida da ladeira é
uma situação nova, que exige muito mais da mente de Samantha do que ela estava
habituado. Assim como o carro quebrou, a mente de Samantha pode entrar em
colapso ao passar por circunstâncias que desestabilizem sua psique já
comprometida. Este colapso seria o que comumente se conhece por surto
psicótico.
Esta é a história de Samantha, mas poderia ser a de
qualquer pessoa. O surto psicótico não discrimina; atinge a todas idades,
gêneros, etnias e grupos sociais. Embora a palavra 'surto' já tenha se tornado
uma expressão de uso corriqueiro, poucas pessoas compreendem o que ela
significa de fato. O surto psicótico
ocorre, basicamente, quando uma psique já fragilizada entra em colapso, ou seja,
em completo desequilíbrio.
O surto não é algo isolado; um conjunto certo de
critérios caracteriza uma crise psicótica como delírios, alucinações,
comportamento desorganizado e discurso desorganizado são sintomas obrigatórios.
É necessário estar presente pelo menos dois destes para classificar o estado
como um surto psicótico.
E atenção! Existe uma diferença entre delírios e alucinações,
conceitos que são constantemente confundidos. Delírios são alterações do pensamento que se caracterizam por
idéias que não condizem com a realidade objetiva, enquanto que alucinações envolvem sempre algum órgão
senso-perceptivo, como a audição, a visão, o tato, o olfato e a sinestesia
(sensações internas). Elas não são invenções – a pessoa realmente está vendo,
ouvindo ou sentindo aquilo. Ou seja, o primeiro ocorre na mente e o segundo
atinge os sentidos.
Do ponto de vista psiquiátrico, o surto psicótico está
relacionado a uma distorção dos neurotransmissores, ou seja, das substâncias
químicas produzidas pelos neurônios e que são responsáveis pelo envio de
informações a outras células. O pensamento tem um curso e um conteúdo, quando o
conteúdo do pensamento está desagregado, ele perde conexão com a realidade ou
então ele distorce a realidade, ele passa a ser um sintoma de surto psicótico.
A dopamina é considerada um neurotransmissor chave da teoria neuroquímica da
esquizofrenia e das psicoses em geral. Além dela, há uma série de outros
neurotransmissores envolvidos, porém os mecanismos destes ainda não são
profundamente conhecidos, estando em fase de estudos, como o glutomato e a
serotonina.
Subindo
a ladeira (As Causas)
Os motivos que levam a um surto psicótico são diversos
e podem variar de pessoa para pessoa. O que é comum entre os surtos é o fato de
serem “a gota d'água”, ou seja, geralmente acontecem em função de um “gatilho
ambiental”. A crise se origina em pessoas que já possuem certa fragilidade
psicológica, ou seja, é algo que vai crescendo. Muitas vezes começa de forma
incipiente e vai se intensificando até que finalmente leva a pessoa a surtar.
Psicoses como a esquizofrenia, abusos de drogas,
crises de abstinência de substâncias e alguns transtornos afetivos como a
bipolaridade (antigo transtorno maníaco-depressivo) são causas bastante comuns
de surtos. Existem, porém circunstâncias pontuais que desencadeiam a crise em
pessoas as quais aparentemente não seriam um alvo óbvio. Fatos marcantes, como
a morte de um ente querido, distúrbios de estresse pós-traumático e mudanças de
rotina abruptas podem levar uma pessoa a surto.
Alguns surtos decorrem de causas orgânicas. Traumatismo
crânio-encefálicos, doenças como o lupus ou tumores cerebrais podem ser
responsáveis por crises. Também pacientes com demências como senilidade,
Alzheimer e Parkinson podem psicotizar, porque essas pessoas começam a ficar
confusas, desorientadas, agitadas, não reconhecem mais a sua casa, a sua
família, e isso pode ocasionar uma desorganização mais grave.
Para a psiquiatria, a psicose tem um fundo
neuroquímico bastante importante, embora o ambiente, o estresse, a existência
de casos de psicose na família, as doenças que prejudiquem o funcionamento do
cérebro são fatores que podem levar a uma crise.
No geral, os psiquiatras veem o surto quase sempre
como parte de uma doença objetiva. Já os psicólogos, acreditam que haja uma
doença de base, exceto no caso de surtos induzidos pelo uso de drogas.
Os
Carros Frágeis (Grupos de Risco)
O surto pode atingir qualquer pessoa, sem distinção de
idade, sexo e grupo social, basta que se tenha uma estrutura psíquica
predisposta a isso. Existem, entretanto, grupos de risco, fases na vida em que
há maiores chances de entrar em crise. O final da adolescência e o início da
idade adulta são fases mais propícias porque certas doenças mentais irrompem
tipicamente nesta idade, como a esquizofrenia cujos sintomas se manifestam (nos
rapazes) entre os 15 e 20 anos. Nestas fases são típicas grandes mudanças na
vida como ir morar sozinho, mudar de cidade, servir no quartel, começar a
trabalhar. Nestes casos, se a pessoa é psicologicamente mais frágil, pode haver
um surto psicótico.
O caso dos surtos em rapazes que vão servir no quartel
é um exemplo recorrente bastante comum. Pessoas com retardo mental também podem
surtar, porque elas têm pouco desenvolvida a capacidade de abstração e
simbolização, e podem não conseguir se relacionar com grupos sociais e interpretar
piadas e brincadeiras, o que os levam a se isolar e frequentemente, entrar em
crise. Crianças e jovens submetidos a situações de muito estresse também são
alvo de crises psicóticas.
Relação
entre o surto e as drogas
Estudos estão sendo realizados para descobrir qual a
relação das drogas com os surtos. Muitas pessoas não possuem nenhuma psicose,
mas ao utilizarem drogas e outras substâncias psicoativas, iniciam uma crise
psicótica induzida. As drogas desencadeiam comumente crises psicóticas são crack,
cocaína e ácidos (incluindo o LSD). O álcool e a maconha têm menor relação com
a decorrência de surtos. No caso do álcool, a crise só ocorre quando este é
consumido em altas doses. A pessoa toma um “porre” e entra em agitação
psicomotora, fica desorganizada, agressiva.
O surto induzido pode ocorrer em pessoas que nunca
utilizaram a substância antes e estão experimentando-a pela primeira vez. Nesses
casos, normalmente a pessoa precisa já ter uma propensão à doença. A droga serve
como desencadeante para a perturbação e os sintomas duram enquanto a droga
estiver no organismo do indivíduo. Muitas vezes ela apenas inicia a primeira
crise. Depois, a pessoa passa a ter surtos mesmo sem a utilização da droga. Vale
ressaltar que as drogas têm o mesmo poder de ser a “porta” que permite o
desencadeamento de uma crise.
Tratamento
A primeira preocupação é com a segurança do paciente,
ou seja, deve-se ajudar a pessoa a se sentir segura. Criar um ambiente seguro é
fundamental. Embora neste período de surto a pessoa possa falar muitas
asneiras, coisas que não condizem com a realidade, é importante ouvir porque o
que emerge às vezes deste psiquismo alterado são coisas sem sentido, mas que
mesmo assim precisam ser faladas, precisam ser ouvidas. A medicação é essencial
para o controle da crise. Os remédios antipsicóticos agem nas vias da dopamina.
A risperidona, a clozapina, a olanzapina são os antipsicóticos mais utilizados.
O haloperidol e o haldol, embora ainda sejam usados, estão perdendo espaço para
os mais modernos porque têm alguns efeitos colaterais mais significativos como
enrijecimento muscular, impregnação (enrijecimento brusco de algum membro) e
salivação. Os medicamentos modernos provocam sonolência e deixam a pessoa mais
prostrada, mas são efeitos que não se comparam ao dos antipsicóticos mais
antigos. À medida que os sintomas vão desaparecendo, a medicação vai sendo
retirada. No caso da crise psicótica ter sido induzida, não é necessária a
medicação, bastando afastar a pessoa das drogas para que ela se reabilite. Hoje
em dia, as internações são breves, somente enquanto durar a crise, cerca de dez
ou quinze dias.
As sessões de terapia são importantes para identificar
se a crise está iniciando uma doença mental, como no caso da uma esquizofrenia
ou de um transtorno afetivo (bipolar, obsessivo-compulsivo etc). Se for
confirmada a hipótese, a pessoa precisará realizar o tratamento a vida inteira,
pois nestes casos não há cura.
Se o surto tiver um causa específica, um evento, um
acontecimento e se esta causa se extinguir, pode ser que a pessoa se recupere
sozinha (por exemplo: um homem que entra em crise após a morte do filho). Muitas
vezes tudo que a pessoa precisa é de tempo para se recuperar da perturbação. Vale
ressaltar que a estabilização de um surto depende de fatores como a idade, as
condições clínicas, a pessoa em si e o que causou o surto.
A
História do Surto
No século XVIII, as pessoas que tinham um sofrimento
mental ficavam presas junto com assassinos, ladrões e estupradores. O médico
francês Philippe Pinel, em 1792, tirou as correntes dos seus pacientes sendo o
primeiro a perceber que havia diferença entre a perturbação mental e a
criminalidade, ou seja, entre um louco e um bandido. Com isso, baniu
tratamentos antigos tais como sangrias, vômitos, purgações e ventosas,
preferindo terapias que incluíssem a aproximação e o contato amigável com o
paciente, proporcionando-lhes, ainda, um programa de atividades ocupacionais,
com tratamento digno e respeitoso. Pinel foi o primeiro a elaborar uma
classificação para as doenças mentais, fato este que constituiu extraordinário
avanço da psiquiatria.
Apesar de ter sido no final do século XVIII e início
do XIX o lugar da colocação das doenças da alma como uma coisa que podia ser
entendida, histórias se repetem todos os dias. Na rede pública, muitas vezes os
pacientes chegam com histórias de 'possuídos pelo diabo', 'encosto',
'bruxaria'. Este é um passo que as pessoas precisam dar adiante, compreender
que são coisas que acontecem, e que não é uma vontade maligna de nenhum agente
de outra espécie, mas sim que a pessoa precisa de ajuda, de apoio, precisa
falar, se sentir assegurada, porque não está entendendo; depois de Freud, nós
sabemos que mesmo aquilo que não faz sentido, carrega possibilidades de
sentido. Hoje, psicólogos e psiquiatras são quem pode ajudar alguém a sair de
uma situação que ela não entende através do diálogo.
Forte abraço e até o próximo post.
Helen Fernanda de Abreu Pereira
helenpsi.abreu@blogspot.com

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