sábado, 23 de março de 2013

A vergonha Desvergonhada

Os transtornos mentais são as doenças que menos matam e mais deprimem.




Dificilmente um profissional de saúde mental será capaz de repetir de cor o índice de transtornos mentais e neurológicos. E, a cada ano, esse número aumenta. Só para impactar, citam-se aqui em ordem alfabética alguns deles, entre os mais e os menos conhecidos, desde a simples melancolia até a psicose:
agnosia, amnésia, anorexia, ansiedade, bulimia, compulsão, delírio, demência, depressão, esquizofrenia, fobia, histeria, hipocondria, ilusão, idiotice, mal de Alzheimer, maneirismo, masoquismo, neurose, obesidade mórbida, oligofrenia, parksonismo, perversão, psicose, sadismo, taquifemia, transtorno bipolar, transtornos esquizofreniforme, verbomania. Só com o prefixo dis há uma série de perturbações: disartria, disbasia, disbulia, discalculia, discinesia, discolia, disestesia, disfonia, disfrenia, dislexia, disminésia, disonia, etc. Na área da das síndromes, temos a síndrome, temos a síndrome de Down, a síndrome neurovegetativa, e até a síndrome do miado de gato. A psiquiatria chega a dividir os transtornos quanto à intensidade: oligofrenia leve, oligofrenia moderada, oligofrenia severa e oligofrenia profunda. Os diagnósticos são tantos e tão detalhados que deve sobrar um deles para cada um dos sete bilhões de habitantes do planeta.
Um dos grandes problemas para a psiquiatria e para o paciente é saber quando o transtorno começa, quando se manifesta e quando acaba, se isso vier a acontecer. Desde o médico francês Phillipe Pinel (1745- 1826), o pai da psiquiatria e do médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939), o pai da Psicanálise, um exército de estudiosos e pesquisadores está procurando entender cada vez mais a complexidade dos transtornos para oferecer uma qualidade de vida melhor para oferecer uma qualidade de vida melhor para os pacientes e seus familiares. Nesse mister é preciso que haja uma conjunção dos trabalhos diagnósticos, terapêutico, reabilitador e preventivo, como diz o artigo A clinica psiquiátrica: ciframento diagnóstico, deciframento das causalidades, e suas resoluções, escrito por professores da Universidade Federal de Montes Claros (Unimontes). A limitação é que "o discurso médico não é suficiente para responder aos paradoxos da clínica psiquiátrica", segundo a psiquiatra Gilda Paolilello.
A assistência psiquiátrica é de suma importância, mas não é suficiente. Graças aos medicamentos que foram surgindo a partir da metade do século 20. A Inquisição foi uma vergonha, as Cruzadas foram uma vergonha, o Colonialismo foi uma vergonha, a Escravatura foi uma vergonha, a Discriminação racial foi uma vergonha, os Campos de concentração foram uma vergonha, a Guerra fria foi uma vergonha e o Manicômio de Barbacena foi uma vergonha.
Se não tivesse desaparecido, a grande vergonha de Barbacena estaria comemorando cento e dez anos, exatamente agora, em março de 2013. Criado pelo governo de Minas Gerais em 1903, Hospício Colônia, começou num ambiente de lugubridade. Embora situado num lugar aprazível (a mil metros de altura), e espaçoso, a propriedade havia pertencido a Joaquim Silvério dos Reis, o coronel português que se filiou à conjuração mineira e depois a denunciou, causando fracasso do movimento que desejava proclamar a independência do Brasil de Portugal, o degredo de vários inconfidentes e o enforcamento de Tiradentes aos 45 anos, em 21 de Abril de 1792.


Nos primeiros trinta anos, tudo correu muito bem. Tão bem que o Hospital Colônia (nome mais delicado) passou a ser um mega-hospital, atraindo doentes de todo o estado de Minas e de vários outros lugares do país, não só portadores de "transtornos mentais" - expressão desconhecida na época -, mas também sifilíticos, tuberculosos e marginalizados. De somente duzentos passou para quase cinco mil pacientes. Era uma mistura absurda: crianças que nunca mais veriam seus pais, meninos considerados desobedientes pelos pais e professores, presos políticos, toda sorte de pessoas indesejáveis, e até moças solteiras que haviam perdido a virgindade ou que estavam grávidas. Os "doentes" eram despejados na estação Barbacena da Estrada de Ferro Central do Brasil, que ficava defronte ao pavilhão principal, pelo chamado "Trem de Doido". A maioria nunca mais voltava para casa.
Por causa da superlotação, a direção da colônia foi obrigada a retirar as três ou quatro camas que de cada quarto para alojar, no chão coberto de feno, oito a doze pacientes, que competiam com os ratos que os mordiam durante a noite. Por causa das fezes e da urina o cheiro era insuportável. Abandonados à própria sorte, os internos perambulavam nus e descalços pelos pavilhões e comiam comida servida em cochos, sem colheres. Os pacientes mais rebeldes e os acusados de alguma insubmissão eram mantidos presos em celas gradeadas, algemados pelos pés e mãos.
Por acreditar que a ociosidade era nociva ao louco, uma parte do tratamento era por conta da laborterapia, por meio da qual se retirava do paciente a condição de criatura inútil, possibilitando a canalização de sua agressividade e, consequentemente, a cura, pensava-se. Os pacientes pobres e considerados indigentes eram forçados a trabalhos monótonos e repetitivos, como se fossem escravos, na lavoura, na área do hospital e na confecção de tijolos.
Praticava-se também a lobotomia, corte das vias nervosas na região frontal do cérebro quando há esquizofrenia grave e em estados compulsivos.

O número de óbitos era assustador - sessenta óbitos por semana. Calcula-se que cerca de 60 mil pessoas morreram no Hospital Colônia.  As mortes eram causadas por maus-tratos, diarreia, desnutrição, desidratação, doenças oportunistas, falta de higiene e frio intenso. Fala-se de um chá que era frequentemente servido por volta da meia-noite e, "estranhamente", no dia seguinte muitos amanheciam mortos e eram espalhados nos corredores e pátios do hospital até serem sepultados.
Até serem sepultados é apenas o modo de falar, pois vários deles eram colocados em tornéis com ácido para "desencarnar", isto é, para tirar-lhes a carne. O que sobrava - o esqueleto - era vendido a faculdades de medicina do país. Além do comércio de esqueletos, havia o de cadáveres inteiros para abastecer os laboratórios de anatomia. Ao todo, 1.853 corpos foram vendidos para dezessete faculdades de medicina.
A grande vergonha do manicômio de Barbacena durou quase meio século - de 1933 a 1979. É uma vergonha recente.
Coisas parecidas ou piores aconteceram no Bethem Royal Hospital Of London, o mais antigo hospital psiquiátrico do mundo, do século 13, e em outros. Num deles, no século 17, doentes mentais eram espancados e torturados em público para divertir os visitantes.
A loucura das pessoas mentalmente sadias é pior do que a loucura das pessoas portadoras de transtornos mentais. É uma loucura consciente e criminosa como a de Hitler, o principal responsável pela Segunda Guerra Mundial, pelos campos de concentração e pela morte de 6 milhões de judeus.
O terceiro Congresso Mineiro de Psiquiatria reuniu em Belo Horizonte, em 1979, um grupo de psiquiatras e profissionais ligados à área de saúde mental para reverter o modelo de tratamento de doentes mentais até então adotado.
Com esse propósito, trouxeram da Itália o psiquiatra Franco Baságlia, cuja postura era marcadamente antimanicomial. Na oportunidade, o palestrante fez uma visita a Barbacena e ficou escandalizado com o que viu e ouviu. Não teve receio de comparar o hospício com um campo de concentração nazista. Talvez Basaglia tenha lido o livro O Sobrevivente, escrito por Aleksander Laks, um dos poucos sobreviventes de Auschwitz, quando ele diz: " O trem parou na rampa de acesso do campo de Auschwitz. Fomos empurrados para fora dos vagões aos gritos e tivemos que deixar no trem a bagagem que trouxéramos, inclusive aquele pão que havíamos guardado para alguma emergência, e também os dez marcos."
Parece que Franco Basaglia conseguiu convencer o auditório de que não havia diferença entre o Hospício de Barbacena e o Campo de Concentração de Auschwitz.


Desde 1971, a imprensa brasileira e especialistas na área começaram a denunciar a falência terapêutica e estrutural da psiquiatria aplicada no Hospício de Barbacena. Em setembro de 1979, o repórter Hiram Firmino publicou uma série de artigos no jornal Estado de Minas sob o título "Os porões da loucura". Logo em seguida o cineasta Helvécio Ratton lançou o documentário "Em nome da razão".
Assim como as proporções exatas dos famigerados campos de concentração europeus só vieram ao conhecimento geral após a vitória dos aliados, a hediondez dos hospícios, principalmente o de Barbacena, só veio à tona depois de todos esses expedientes, provocando uma reforma psiquiátrica de grandes proporções. A Cidade da Loucura entrou pela segunda vez na história da psiquiatria brasileira, desta vez para reparar o que havia sido feito na primeira vez. Assim a vergonha de Barbacena foi "desvergonhada". E para ambos, a vergonha e a "desvergonha", jamais fossem esquecidas, criou-se o Museu da Loucura em 16 de Agosto de 2009, exatamente no edifício de entrada do outrora Hospício de Barbacena.



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