quinta-feira, 18 de abril de 2013

Aprendendo a Desistir

     
      Poucas coisas nos inspiram tanto quando a capacidade de superação humana. Das paraolimpíadas ao office-boy que se tornou presidente da empresa, elegemos ícones de superação que funcionam para nós como poderosos lembretes acerca da tangibilidade de nossos sonhos e, sobretudo, da importância de sermos persistentes ao persegui-los. Afinal, desistir diante das dificuldades parece ser o caminho dos fracos, dos imaturos, dos infelizes. Mas... será? Acredito que o significado de um determinado comportamento de desistência deveria passar, sempre, pelo crivo da contextualização. Isso porque desistirmos, por exemplo, de um emprego que no torna infelizes, pode muito bem ser um sinal inequívoco de nossa persistência na luta por um projeto pessoal de felicidade. 
     Fernando Pessoa, numa recomendação que poderia muito bem ter saído das páginas de um livro de psicologia nos diz: " Não se acostume com o que não te faz feliz", afirmação que, fatalmente, implica a necessidade de desistirmos de algo: ainda que seja do que nos torna infelizes. Já Marina Colasanti, em um belíssimo texto que fala sobre o sofrimento que nos infligimos quando perseveramos naquilo que nos traz sofrimento, adverte: " A gente se acostuma, mas não devia."
      Esses autores tem toda razão. A quase infinita capacidade de adaptação do ser humano, embora seja uma vantagem em termos evolutivos, pode muito bem nos aprisionar em situações que nos transformam nas piores versões de nós mesmos. 
      Existe uma delicada dialética entre persistir e desistir, na medida em que desistir de algo pode ser uma forma de persistência em relação a alguma coisa de maior importância. Sendo assim, fica clara a falácia do "render-se jamais". Em uma sociedade que valoriza o lutar e o não desistir, a recomendação mais adequada seria a se saber quando lutar e quando desistir.

                                     

       Embora prefira manifestar minha espiritualidade por meio de discursos próprios, há uma oração que julgo belíssima e que ilustra bem magistralmente essa questão. Trata-se da "Oração da Serenidade", datada do século XIX e de autoria polêmica, que diz:
"Senhor, concedei-me a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, Coragem para modificar aquelas que posso, e Sabedoria para distinguir umas das outras."
Creio que está é essa singela oração nos fornece a pista para que sejamos capazes de compreender quais os recursos que nos permitem responder adequadamente à acima mencionada questão do quando. Trata-se das virtudes. Nesse caso, duas virtudes em particular: a moderação (que a dita oração chama de serenidade) e a sabedoria. 
      Dentre as chamadas virtudes ubíquas, a Moderação (ou temperança) é a menos praticada na cultura ocidental; afinal de contas, trata-se de uma cultura que se caracteriza pelos excessos. Excessos que vendem, que impactam, que viciam. Por outro lado, é justamente no exercício dessa virtude que reside uma das principais características que diferenciam homens de animais: a capacidade de adiar gratificação. 
       O homem é capaz de desistir de algo que lhe traz gratificação imediata em nome de um benefício maior no futuro. É por isso que vai à faculdade ao invés de se ir para uma festa com os amigos, por exemplo. Em outras palavras, a capacidade de desistir quando necessário é movida pela virtude da moderação. 
      A outra virtude é a Sabedoria. É ela que nos diz quando lutar e quando desistir. É ela quem nos diz o caminho que estamos trilhando não é capaz de nos levar a autorrealização. 
     Sendo assim, faço minhas palavras de Viktotor Frankl. "O que o homem precisa, realmente, não é de um estado de tensões, mas sim do esforço e da luta por uma meta digna dele". 
     Para encerrar, aqui fica minha recomendação (que faço pra mim mesma): quando você se perceber em uma situação que não lhe permite a expressão do seu melhor ou ainda quando notar que está lutando por um objetivo que não é digno de você, simplesmente desista. Porque desistir de uma luta inglória pode ser a melhor maneira de não desistir de si mesmo.

Forte abraço e até o próximo post.

Helen Fernanda de Abreu Pereira
helepsi.abreu@gmail.com









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